Sexta-feira, 14 de Março de 2008

As Mulheres do Bolhão!!

Já não amanheceram sorrisos no rosto de Mónica. Desapareceu o sol do olhar de Alice. Esmoreceram as palavras na boca de Mariazinha. Estão tristes, as mulheres do Bolhão. Receiam ver a Alma do Porto – O seu mercado – transformado em centro comercial. Ainda assim, não desistem das gargalhadas, do amor oferecido aos bocados na passagem de cada cliente, da linguagem colorida feita de excessos. (…)

 

Não se calam. Nunca. Mas estão tristes, as mulheres do Bolhão!

 

 

 

Olga Resende (Olguinha), 72anos:

Florista

 

“ (…) Vim para o Bolhão com três dias (…) Antigamente não tínhamos barracas. Vendíamos no chão. À sexta-feira e ao Sábado era tanta gente que andava tudo aos encontrões. Fazíamos muitas amizades. Éramos um por todos, todos por um. Estão aqui raparigas que hoje têm quarenta anos e vieram para cá com oito ou dez anos (…) Gosto muito disto, À segunda não venho, mas estou sempre ansiosa por vir. O bolhão para mim é tudo. Aqui cresci, aqui fui criada. Aqui envelheci. Se isto fechasse seria um grande desgosto. Já chorei muito por causa do que querem fazer (…)”

Maria da Conceição Santos (Mariazinha das Sócias), 67anos:

 Vendedora de Legumes

 

“ (…) As pessoas sabem onde se vendem as coisas boas. Nos Natais é no Bolhão que procuram os bons grelos e o cabrito. Não vou tapar o sol com a peneira. (…) Tive dias muito felizes aqui. Eu dava mais para teatro do que para estar a vender. Sou mesmo do Bolhão. Sou uma rapariga do Norte. Somos muito para a frente e muito caralheiras. Agora o que me vale é o “Xanax”. (…) Antigamente ganhava-se tostões, mas com alegria. Agora anda tudo triste. Vim para cá no ventre da minha mãe. O bolhão sempre fez parte de mim (…) Não sei que futuro vaio ser o nosso. Ainda tenho genica para dar e vende. Nunca imaginei ver o Bolhão como esta agora (…)” 

 

Andraína Sousa, 83 anos:

Vendedora de cereais:

“ (…) Estou aqui há 46 anos. O Bolhão já na altura era isto que se vê. Nunca teve obras. O estilo era o mesmo. Quando vim para cá era preciso ter duas ou três pessoas a servir os clientes. Por vezes nem tínhamos tempo para almoçar. Era um negócio que dava gosto. Aqui me governei e formei a minha filha. Nunca a pus a vender no Bolhão. Formou-se em História. (…) Não acredito que isto vá acabar. Ainda não fomos informados de nada pela câmara, que é o nosso senhorio. Temos casos de avós, filhas e netos a trabalhar no Bolhão. (…) “

 

 

 

 

Alice Ferreira, 57 anos:

Peixeira

 

“ (…) Estou no Bolhão há 41 anos. Aqui trabalhei, namorei e casei. O meu primeiro emprego foi aos nove anos, em bolsas de prata (…) Antigamente isto era muito bonito. As barracas estavam todas ocupadas. De manha cedo vinham os homens descarregar o peixe e a fruta. Os frangos vinham em jaulas e matavam-se aqui. À tarde vinha a faneca da linha e o camarão. Vendíamos até ás cinco ou seis da tarde. Há uns anos para cá começámos a sentir a quebra. O Porto está cheio de hipermercados. São centros comerciais a mais. Os nossos fregueses nunca nos trocam. Temos gente que vem cá há anos e alguns são de longe, mas tem confiança no que vem encontrar aqui. O dia-a-dia agora é mais calmo. É costume aí pelas sete da manha, termos logo os chineses para ver o mercado. Eles gostam de nós, metemo-nos muito com eles. ”

 

Maria Fernando Sousa (Fernandinha), 75 anos:

Vendedora de Feijão:

“ Estou na barraca à 40 anos. Antes estava lá fora, á chuva e ao sol. Agora, se me tirarem isto, tiram-me a vida. Em Agosto parti um perna e pelo Natal já cá estava a trabalhar. O negócio da Fernandinha nunca fechou. As da frente abriam-me isto porque há aqui muitas amizades e gente muito séria. Comecei a vender à 62 anos. Eu não queria. Chorei, porque preferia ir para a fábrica. O povo do Porto andava comos olhos fechados. Vêm aqui muitos estrangeiros. Adoram isto. A minha cara deve andar por todo o lado. China, Inglaterra, sei lá. Às vezes mandam-nos fotos pelo correio (…) Sair do Bolhão é o meu maior desgosto (…) A minha filha diz que quando estou aqui nunca estou doente, em casa dói-me tudo

 

 

Mónica Moreira, 31 anos:

Florista

 

“ (…) Se isto fechar, há muita gente que vai sentir a falta. Ajudamos muita gente e damos de tudo a várias instituições de caridade. (…) Vim para cá há 16 anos. Como eu, há muita gente nova no Bolhão. Tenho dois filhos, um com dois anos e meio e outro com dois meses. São criados aqui. É um ambiente saudável para eles crescerem. Passei aqui a gravidez toda. Rebentaram-me as águas e fui daqui direita para a maternidade. Sou nova, podia optar por outras coisas, mas prefiro estar no mercado. Ás vezes diz-se que as mulheres daqui são muito descaradas. O Bolhão é isso. Faz parte da nossa cultura (…)”

 

 

 (imagens retiradas da Revista Única)

 

 

A Olguinha, a Mariazinha, a Alice, a Andraína, a Fernandinha e a Mónica não cabem em espaços fechados…são mulheres com demasiada alma para serem colocadas numa espécie de vitrinas, onde se mostrará como era o mercado antigamente.


Publicado por piriloni às 22:54
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Somos quatro jovens estudantes pertencentes á escola secundária do Padrão da Légua. O grupo formou-se dentro das aulas de Área de Projecto e rapidamente tanto o tema como o nome do grupo surgiram espontaneamente. O nome do nosso grupo "Piriloni" surgiu de uma brincadeira em que juntamos iniciais dos membros do grupo. Criamos um nome sonante, marcante e divertido.

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